sábado, 6 de outubro de 2012

Prevenção do suicídio em todo o mundo: fortalecendo os fatores protetores e incutindo a esperança


 
No dia 10 de setembro de 2012 comemorou-se o aniversário de 10 anos do Dia Mundial de Prevenção ao Suicídio. São dez anos pesquisando, prevenindo, educando e divulgando informações.
Os esforços desta década são baseados em evidências de pesquisa que comprovam a possibilidade de evitarmos o suicídio. O principal objetivo dessa iniciativa, organizada pela Associação Internacional para a Prevenção do Suicídio (IASP) em colaboração com a Organização Mundial de Saúde (OMS), é de fato conscientizar comunidade científica e população em geral de que é possível prevenir o suicídio.  Por isso, precisamos diminuir o estigma e o silêncio que ainda cercam o assunto.
O tema do Dia Mundial de Prevenção ao Suicídio deste ano é  'A prevenção do suicídio em todo o mundo: fortalecendo fatores protetores e incutindo esperança'.
As campanhas educativas e de conscientização de saúde pública têm focado muitas vezes o papel dos fatores de risco no desenvolvimento do comportamento suicida.  Para aumentar a eficácia na prevenção do suicídio propomos direcionar nossos esforços não apenas para a redução dos fatores de risco, mas também para o fortalecimento dos fatores protetores, com o objetivo de prevenir a vulnerabilidade ao suicídio e fortalecer a capacidade de recuperação das pessoas.

Suicídio: dimensão do problema e padrões do comportamento suicida

Magnitude do Problema
O comportamento suicida tornou-se um problema de saúde pública importante em todo o mundo. Trata-se de um fenômeno complexo que geralmente se desenvolve ao longo de uma sequência contínua, passando de pensamentos suicidas, para planejamento e depois tentativa e, por último, morte por suicídio: o final trágico desse processo mórbido.
Dados da OMS indicam que aproximadamente um milhão de pessoas se suicidam todos os anos no mundo. Esses números equivalem a uma morte por suicídio a cada 40 segundos. A quantidade de vidas perdidas todos os anos devido ao suicídio supera o número de mortos por homicídio e conflitos armados juntos.
As tentativas de suicídio e os pensamentos suicidas são bem mais comuns. Por exemplo, o número de tentativas pode ser 20 vezes maior que o número de mortes por suicídios. Estima-se que aproximadamente 5% das pessoas tentem o suicídio pelo menos uma vez na vida e que a prevalência de ideias suicidas ao longo da vida na população em geral seja de 10 a 14%.
O suicídio é uma das principais causas de morte em todo o mundo e, em alguns países, as taxas aumentaram 60% nos últimos anos.
Além disso, é possível que as estatísticas de suicídio não sejam sempre exatas.
Muitos suicídios ficam ocultos entre outras causas de morte, como as colisões envolvendo um único veículo e seu condutor e os afogamentos sem testemunhas, bem como outras mortes sem causa determinada.  Estima-se também que o suicídio não seja informado por diversas razões, incluindo estigma, preocupação religiosa e atitude perante a sociedade. Os impactos psicológico e social do suicídio na família e na comunidade são enormes.  Além disso, calcula-se que os custos econômicos associados à morte ou aos ferimentos infligidos a si próprio sejam de bilhões de dólares ao ano.
Diferenças em relação à idade
O comportamento suicida pode ocorrer em qualquer idade. A frequência do comportamento suicida aumenta progressivamente da infância, passando pela metade e o fim da adolescência, até a fase adulta.
O suicídio é a segunda maior causa mundial de morte entre jovens de 15 a 19 anos - pelo menos cem mil adolescentes se suicidam todos os anos.  As taxas de suicídio são altas entre pessoas de meia-idade e idosos e ainda mais elevadas entre pessoas com mais 75 anos.
 O idoso está propenso a ter mais determinação em se suicidar e a usar métodos mais letais que os mais jovens, e a probabilidade de sobrevivência às consequências físicas de uma tentativa é menor.
Diferenças entre os sexos
Acontecem em média três suicídios de pessoas do sexo masculino para cada suicídio feminino.  Essa proporção é mais ou menos constante entre as diferentes faixas etárias em quase todos os países do mundo. Por outro lado, as taxas de tentativas de suicídio tendem a ser de 2 a 3 vezes maiores entre as mulheres, embora essa diferença tenha diminuído nos últimos anos.  Essa diferença entre as taxas de suicídio foi explicada em parte pelo uso de meios mais letais entre os homens, por práticas mais agressivas e determinação maior de morrer ao se suicidar. 
Diferenças entre os países
As taxas de prevalência de tentativas e de suicídio concretizado são significativamente diferentes em todo o mundo. Contudo, devido às limitações de coleta de dados citadas anteriormente, essas diferenças devem ser analisadas atentamente. As maiores taxas documentadas são de países da Europa Oriental (entre eles Lituânia e Federação Russa) e as menores são de países da América Central e do Sul (Peru, México, Brasil e Colômbia). As taxas dos Estados Unidos, Europa Ocidental e Ásia estão dentro da média. Infelizmente, as estatísticas sobre suicídio de muitos países da África e de alguns países do sudeste da Ásia ainda não estão disponíveis.
Quem corre risco de se suicidar?
O suicídio afeta todas as pessoas, mas alguns grupos correm mais risco que outros.
Pessoas com histórico de tentativas de suicídio ou automutilação
O histórico de tentativas de suicídio ou automutilação é o mais forte indicador de morte por suicídio. A taxa de suicídio nesse caso é 30 a 40 vezes maior que a da população em geral. Os primeiros dias e semanas que se seguem à internação psiquiátrica perfazem o período mais decisivo de risco de suicídio entre pacientes. As descobertas mostram a necessidade de dedicar atenção à continuidade do tratamento dos pacientes psiquiátricos.
Pessoas com distúrbios psiquiátricos e/ou distúrbios relacionados ao uso de drogas
Tem sido documentado que aproximadamente metade das pessoas que consideram seriamente tirar suas vidas recebeu diagnóstico de distúrbio mental ao longo da vida e que até 90% das pessoas que morrem por suicídio receberam diagnóstico psiquiátrico pelo menos uma vez.  Entre esses diagnósticos, os transtornos depressivos são os mais comumente associados ao comportamento suicida, seguidos dos transtornos relacionados ao uso de drogas, da esquizofrenia e dos transtornos de personalidade.  O uso abusivo e a dependência de álcool e drogas foram identificados como importantes fatores de risco de pensamentos e comportamento suicidas. Apenas o uso de entorpecentes, sem que haja uso abusivo ou dependência, já é um fator de risco significativo de tentativas de suicídio não planejadas entre pessoas com pensamentos suicidas.  A existência de comorbidade, ou seja, a presença de dois ou mais transtornos psiquiátricos ou de um transtorno psiquiátrico e outro relacionado ao uso de entorpecentes, aumenta de forma significativa o risco de suicídio.
Pessoas que passam por fatos de vida estressantes
O acontecimento estressante funciona muitas vezes como fator precipitador de tentativas de suicídio ou de sua concretização por pessoas com menos capacidade de lidar com esses eventos.  Acontecimentos como conflitos familiares e interpessoais, rompimento de relacionamento, outras dificuldades interpessoais, problemas com a justiça ou disciplinares, e dificuldades financeiras e profissionais podem ser seguidos de tentativas de suicídio por impulso.  Períodos de crise econômica e taxa de desemprego elevada estão associados a uma maior vulnerabilidade social e, muitas vezes, ao aumento do número de mortes por suicídio. Foi demonstrado que o luto, acontecimento frequentemente descrito como sendo um dos mais estressantes, aumenta o risco de suicídio e o comportamento suicida em pessoas vulneráveis, especialmente se o ente querido morreu por suicídio.
O risco de suicídio também  é maior entre pessoas com doenças físicas graves, como câncer ou contaminação por HIV. Na verdade, descobriu-se que o risco de suicídio está associado a um grande número de doenças, que inclui de asma a traumatismo crânio-encefálico.
O sentimento de estresse permanente talvez explique também o risco elevado de suicídio entre alguns profissionais, como médicos, pessoal do exército e policiais, bem como presidiários.  Além disso, fatores estressores remotos, como por exemplo, traumas de infância, têm sido constantemente associados ao aumento do risco de comportamento suicida na vida adulta.
Fortalecendo fatores protetores e incutindo esperança
Fatores protetores
Embora o número de pessoas ameaçadas pelos fatores de risco acima seja grande, o fato de o suicídio ser um acontecimento relativamente raro indica que existem diversos fatores protetores que atenuam os efeitos da exposição aos fatores de risco. Entre os fatores psicológicos geralmente são considerados protetores: capacidade de recuperação (aptidão em lidar com situações adversas e se adequar a elas), valorização de si próprio, autoconfiança, aptidão em lidar com problemas e solucioná-los de forma eficaz, e capacidade de adaptação por meio da busca de ajuda.
Fatores sociais e culturais como integração religiosa e social, capacidade de conexão no contato com outras pessoas, manutenção de bons relacionamentos com amigos, colegas e vizinhos, acesso ao apoio de outras pessoas importantes e acesso fácil aos serviços de saúde estão associados a um risco menor de suicídio e de repetição de tentativas de suicídio.  Além disso, ter um estilo de vida saudável por meio de bons hábitos de dieta e sono, atividade física regular, abstenção ao tabagismo e ao uso de drogas ilícitas também está associado a um risco menor de comportamento suicida.
É possível prevenir o suicídio
O suicídio é um fenômeno de causas diversas que ocorre em um ambiente em que interagem de forma complexa riscos biológicos, sociais, psicológicos e ambientais, bem como fatores protetores.  É  possível prevenir o suicídio apesar de sua complexidade.
A prevenção primária do suicídio exige a ampla modificação das condições sociais, econômicas e biológicas para impedir que elementos da população se tornem suicidas. Essa prevenção implica intervenções com foco na população e não no indivíduo em risco. As intervenções preventivas primárias incluem: restringir o acesso a métodos letais, promover a saúde física e a saúde mental positiva, promover descrições de responsabilidade do suicídio nas redes sociais e outros meios de comunicação, tentar diminuir o estigma da saúde mental e do suicídio e estimular a conduta de busca de ajuda através da conscientização da população e de campanhas de educação.
O objetivo da prevenção secundária é minimizar o risco de suicídio nas populações de alto risco. Nesse sentido, é fundamental identificar precocemente os suicidas, diagnosticar com precisão e tratar com eficácia problemas de saúde mental, especialmente transtornos do humor e transtornos relacionados ao uso de drogas. Mais da metade dos pacientes que morrem por suicídio consultaram um clínico geral um mês antes de morrer.
Por isso, parte essencial da prevenção do suicídio consiste em aprimorar nesses profissionais o a capacidade de reconhecimento de sintomas e transtornos psiquiátricos, avaliação dos riscos de suicídio e intervenção com tratamentos e orientação. Da mesma forma, é possível melhorar a capacidade de identificação de risco de suicídio e automutilação e auxiliar no encaminhamento de pessoas vulneráveis a estabelecimentos de avaliação e tratamento apropriados fornecendo programas educacionais a mediadores (pessoas que estão regularmente em contato com indivíduos e famílias em dificuldades, como sacerdotes, socorristas, farmacêuticos, professores e policiais).
Finalmente, a terceira prevenção tem como objetivo prevenir a reincidência do comportamento suicida após a tentativa.  Isso inclui também a terapia de apoio pós-suicídio – assistência, apoio e tratamento das pessoas envolvidas e afetadas pelo suicídio.
Prioridades na Prevenção do Suicídio e Foco nos Fatores Protetores. 
Medidas necessárias:
• Prosseguir com a pesquisa sobre comportamento suicida fatal e não fatal abordando fatores protetores e de risco.
• Desenvolver e implementar campanhas de conscientização com o objetivo de aumentar a conhecimento em relação ao comportamento suicida na comunidade, e incluir evidências de fatores protetores e de risco.
• Direcionar nossos esforços não apenas na redução dos fatores de risco como também no fortalecimento dos fatores protetores, principalmente nas crianças e nos adolescentes.
• Treinar profissionais de saúde para que compreendam melhor os fatores protetores e de risco baseados em evidências e associados ao comportamento suicida.
• Combinar prevenções primárias, secundárias e terciárias.
• Aumentar a aplicação, e a adesão, de tratamentos que tenham demonstrado ser eficazes contra diversas doenças e priorizar a pesquisa sobre a eficácia dos tratamentos destinados a reduzir os riscos de automutilação e suicídio.
• Aumentar a disponibilidade dos recursos de saúde mental e reduzir obstáculos de acesso a tratamentos.
• Divulgar as pesquisas sobre prevenção do suicídio aos responsáveis pela formulação de políticas nos níveis local, nacional e internacional.
• Reduzir o estigma e promover os estudos de saúde mental entre a população como um todo e os profissionais de saúde.
• Chegar até as pessoas que não procuram ajuda e, por isso, não recebem tratamento no momento que necessitam.
• Garantir a constante provisão de recursos financeiros para pesquisa e prevenção do suicídio. 
• Persuadir os governos a desenvolver estratégias de prevenção ao suicídio envolvendo todos os países e a apoiar a implementação daquelas que têm demonstrado salvar vidas.
Tradução: Adriana Caterina Bellacosa
 
 
 

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